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03/02/2010 -
Há milhões de anos o Tietê se esparrama preguiçosamente pela planície que corta, irrigando a mata ciliar que o protege no longo caminho de quase 1.100 km até o rio Paraná.
Mais de 60 cidades ribeirinhas se beneficiam do Tietê. Antes, como hidrovia, lazer e fonte de alimentos. Hoje, como lixeira. São milhares de toneladas por dia de esgoto doméstico e industrial.
De cinquenta anos para cá, acharam que poderiam invadir a sua várzea, construir bairros inteiros até as margens. Também fizeram aterros irregulares e muitas indústrias.
E ele lá, silencioso, suportando tudo. Esgueirando-se, o doente Tietê vai pelas invasões, sendo acusado de atrapalhar, como se fosse ele o invasor.
Ao mesmo tempo, as grandes manchas urbanas foram sendo literalmente encapadas. Asfalto nas ruas, cimento nos passeios, edificações sem quintal de terra.
Com o chão impermeabilizado, a água das chuvas corre velozmente para as áreas mais baixas, levando tudo o que encontra pela frente.
Num ano como este, em que chove mais do que regularmente, acontece o que estamos vendo nos noticiários. Não vá me dizer que ninguém jamais imaginou que isto um dia aconteceria.
Casas caindo, crianças sendo arrastadas pela correnteza, famílias inteiras soterradas. A dengue, em parceria com a leptospirose, levando outras vidas. O Tietê, de repente, virou o carrasco de milhares de pessoas.
As ocupações irregulares das várzeas de rios e córregos e a deseducação quanto ao lixo urbano são os grandes vilões provocadores das enchentes. É óbvia a conclusão.
Não podemos ver repetida esta desgraceira toda no próximo verão. Os poderes públicos terão que retirar os moradores das várzeas e das encostas. Áreas de risco têm que ser isoladas. Custe o que custar.
Quanto ao lixo, todo o mundo já sabe o que fazer. O que falta são campanhas maciças e permanentes para manter acesa na memória a consequência por não se respeitar as regras da natureza.
Amanhã, quinta-feira, os prefeitos das cidades da AMAT se encontrarão em reunião extraordinária, no gabinete do prefeito de Guarulhos, para discutir as formas de agir e de cobrar do governo estadual ações efetivas para dar um basta ao problema.
Não se pode mais aceitar explicações sobre o que está acontecendo. Já sabemos, choveu mais do que costuma chover nesta época, as represas estão estourando o seu limite, o povo está sendo vitimado, etc.
O Estado, o que fiscaliza, autoriza e desautoriza o que pode ser feito na várzea do rio, o que regula a vazão das barragens ao longo do Tietê, não pode deixar para os prefeitos a responsabilidade do desastre.
As enchentes que tomam conta de São Paulo acusam uma grande verdade: somos todos culpados por ela estar acontecendo. Menos lixo, menos ocupação irregular, menos enchentes. Esta é a equação mais simples que pode haver.
AMAT
Pedro Campos Fernandes
11 - 4747-1018 |
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